Análise subjetiva dos dados

Com a calculadora na mão, ali mesmo no banco do ônibus, durante a volta para casa, nosso herói chega a terrível conclusão: “o mundo realmente está perdendo o encanto”.

Tinha o hábito de analisar e enumerar cada pequeno episódio que ocorria a sua volta. Nenhum gesto, nenhuma expressão, nada lhe escapava, nada fugia da fria e indiferente lógica matemática posta incansavelmente em prática. A cada novo dado recebido, corria para que este fosse devidamente registrado e catalogado. Feito isso, enquanto não atualizasse a planilha de excel salva em seu computador, fazia as anotações no seu caderno de bolso e contablizava tudo na sua leal calculadora científica. Raramente se confundia, os resultados preliminares quase sempre demonstram-se fiéis à análise definitiva. Ainda assim, em um primeiro porém significativo instante, ficou incrédulo com o número que surgira no visor: -15%.

Sabia que havia uma tendência de queda. Sim, sabia. Não há como prever apenas de cabeça qual será o resultado final, pode-se apenas inferir com base no que se observa. “A análise sem a devida contabilização é puramente subjetiva”, vivia se repetindo. Por isso, por pior que fossem os resultados, mantinha-se cético e evitava previsões antes da hora. Mas aquilo havia sido surpreendente: -15% no último ano foge – e muito – de qualquer padrão. Os números que havia lançado estavam corretos, não havia dúvidas: o mundo perdeu no último ano o valor médio de 15% de rendimento líquido daquilo que se conta como beleza, amor, alegria e satisfação em geral. Chegando em casa, lançando mais uma vez os dados, esse seria um fato estatísticamente comprovado.

Não aguentou esperar, checou os números mais uma vez, um a um. Todos corretos. “A única explicação seria uma amostragem insuficiente”. Refletiu. “É preciso ampliar a minha base de dados, confirmar a tese em um cenário maior. Preciso tornar a análise mais complexa”. Parou.

Pela janela do ônibus observou o movimento da rua e viu que não eram as ruas que passavam por ele, e sim o contrário. Fechou o caderno, desligou a calculadora e desceu do ônibus fora do ponto ainda longe de casa.

Não demorou muitos dias para perceber o quanto era bobo. Parou de contabilizar a vida e algumas semanas depois se apaixonou, sem que fosse correspondido. Apaixonaram-se por ele, mas também não quis nada.

Largou o emprego e saiu de casa. Vive cada instante como se fosse o último. Quem lhe conhecia na época que fazia contas hoje sente sua falta.

Parece feliz.

Um conto de Natal para Dimitri Aiello

E já foi o Natal. O ano já acabou, (quase) todos ganharam seus presentes, (quase) todos ficaram felizes, amanhã é o último dia do ano e segunda-feira as coisas já voltam ao normal. Quem me conhece sabe bem que eu não sou o tipo de cara que acredita muito nessa história de o fim do ano ser uma época mágica e tal. Quero dizer, a não ser pela reunião de família, que pra mim, em qualquer ocasião, é no mínimo curiosa. Bom, depois de muito tempo sem postar aqui nesse blog, aproveito que não tenho mais nada pra fazer e narro alguns episódios que não tem nada de extraordinários mas que acabam dizendo uma coisa ou outra sobre mim e sobre a maneira como eu enxergo o mundo a minha volta,  especialmente minha família. Todos eles ocorreram no último dia 24, veja só, véspera de Natal.

Bom, o dia começou comigo pulando da cama e gritando de susto. Um barulho enorme de coisas caindo, vidro se estilhaçando e metal se retorcendo. Por um momento achei que um avião tinha caído no telhado do vizinho. Sério, achei mesmo. Demorou pra me acalmar, fiquei alguns segundos paralisado de pânico e depois um bom tempo sem conseguir parar de tremer. Desci as escadas correndo para ver o que era, já esperando me deparar com algum desastre. Encontrei com os meus pais na lavanderia, um pouco assustados também, mas nem tanto quanto eu, olhando para a bagunça que eles fizeram. Deu que eles resolveram arrumar a casa logo cedo e já começaram atacando o caos da lavanderia. Colocaram peso demais onde não devia e a gravidade fez o resto, levando várias latas de tinta, garrafas vazias e todo tipo de ferramentas e cacarecos pro chão. Eis o meu desastre aéreo.

Cabe dizer aqui que eu estou longe de ser uma pessoa paciente se for acordado de repente, alguns amigos que já fizeram viagem comigo podem confirmar. Então não, não foi com nenhuma serenidade que eu me levantei naquela manhã. Não sei se foi o susto, se foi a raiva aflorando ou por simplesmente ser véspera de Natal, mas me veio uma vontade súbita de ter o meu irmão por perto. Veja, minha mãe tem sérios problemas na coluna e meu pai ainda está se recuperando de uma cirurgia para retirada de um câncer. Eu não sei o que eles pensam, mas eu acredito que isso seja motivo suficiente para que eles fiquem sossegados e não façam nada como derrubar prateleiras cheias de tranqueiras ou coisas do tipo. Eu sei que a citação é meio ridícula, mas em um dos filmes do Super-Homem, não me lembro qual, alguém diz uma frase assim: “…e o filho se torna o pai e o pai se torna o filho”. Foi exatamente o que eu senti enquanto limpava o chão sujo de tinta da lavanderia. Me fez lembrar da vez em que meu irmão e eu, com uns 11 e 9 anos respectivamente, encontramos uma caixa de fósforos. Mas não eram fósforos qualquer, eram uns bem grandes com uns 10 cm de comprimento, o que pra nossa idade ainda era algo bem grande em se tratando de fósforos. Decididos a testar o poder de fogo dos palitos de fósforo de tal magnitude, quase ateamos fogo na casa inteira. Deu que levamos umas boas chineladas e ficamos um bom tempo sem receber mesada (a pequena fortuna de R$5,00 por mês). Enfim, a vontade que eu tive foi de tirar a mesada dos meus pais, o que é bem frustante, já que eu não pago mesada pra eles, que são bem grandinhos e já tem até renda própria, veja só. Me restou sentir raiva, uma raiva meio sem sentido, sem porquê, típica de mim se eu for acordado no susto. Raiva por não saber me controlar. Raiva pelo ridículo da situação. Raiva por não ter o meu irmão mais velho por perto. Raiva por perceber o meu egoísmo de só querer que ele estivesse vivo por que assim as coisas seriam mais fáceis na hora de dar uma bronca nos meus pais. Depois de tudo arrumado na lavanderia, tive que recorrer ao bom e velho truque de dizer “nossa como estou sujo!”, subir despreocupadamente as escadas e entrar no banho, para só então chorar.

O que me faz lembrar de um dos livros que mais me perturbaram neste ano, As Ilhas da Corrente, de Ernest Hemingway. É sobre um pintor que vive sozinho fazendo quadros com cenas do Caribe e das ilhas banhadas pela Corrente do Golfo, daí o título. Durante quase todo o desenrolar da trama, o personagem não demonstra quase nenhuma reação às tragédias que permeiam sua vida, entre perdas terríveis e um amor perdido. Mas são as poucas reações, os poucos vislumbres da tristeza que ele carrega mas não demonstra que me tornou o livro tão perturbador. Foi no fim do banho, enquanto me secava, fazia a barba e me acalmava, que eu percebi que não é saudável se identificar com um personagem de Hemingway. Ao menos não deve ser normal quando se tem apenas 23 anos e uma vida toda pela frente. Mas pensar nisso me faz lembrar que meu irmão também tinha 23 anos e que também achava que tinha uma vida toda pela frente. É um círculo vicioso muito dolorido que me dá quando me lembro dele. Mas preocupações acerca da minha saúde mental não são o tema de hoje, muito obrigado, vamos prosseguir.

Enfim, deu que à noite estávamos todos juntos, meus pais, irmã, tios, tias, primos, primas e avós, reunidos na casa da minha tia, como tradicionalmente fazemos todos os anos. E pela primeira vez nestes anos  eu finalmente tive vontade de fazer um discurso. Um discurso-bomba, daqueles arrasadores, que botam todos pra pensar. Eu quis fazê-lo por que neste ano, como também já é quase uma tradição, houveram intrigas, palavras que não foram ditas, mas foram pensadas e mantidas na ponta das línguas, com toda aquela rixa familiar típica, especialmente se for uma família de ascendência italiana, espanhola ou portuguesa (no nosso caso, todas juntas). Como dizem os italianos, que já até fizeram um filme sobre isso, parente é serpente. Bom, daí que de vez em quando me acomete essa arrogância descontrolável de querer botar consciência na mente das pessoas, e foi o que eu queria fazer com o meu discurso naquela noite, planejado pro tradicionalíssimo brinde da ceia de Natal. Eu ia dizer, básica e resumidamente, que toda aquela intriga não fazia o menor sentido. Deveríamos todos parar de falsidade e admitirmos o quanto nos amamos. Iria até dar o meu exemplo pessoal, confessaria de uma vez por todas que o que mais me perturba na morte do meu irmão é que eu convivi com ele durante mais de vinte anos e durante esse tempo todo, com todas as oportunidades que ele oferece, nunca disse a ele o quanto eu o amava.

Para sorte de todos ali presentes, um dos meus tios tinha que fazer a ceia em outro lugar e portanto teve que sair rapidamente, antes da meia-noite, fazendo com que o brinde fosse momentaneamente esquecido e só lembrado mais tarde, sendo feito de forma meio apressada. Isso e um pouco de sanidade que me bateu, ao perceber que eu só ia estragar o natal de todos ali, e o medo de que dizer o que eu tinha pra dizer talvez fosse demais para minha mãe ouvir. E parando pra pensar com mais calma, eu vi que o meu tão bem preparado discurso era na verdade totalmente inútil. Acreditem ou não, mas meus pais e meus tios até que tem um pouco de maturidade e sabem relevar certas intrigas. Nada como um pouco de vinho para alegar e fazer esquecer as pequenas rixas. A noite seguiu tranquila e tradicional, sem muitas surpresas, como ocorrem todos os anos. Mais uma vez o dia foi salvo graças às meninas superpoderosas ao meu bom-senso de última hora.

É isso, e esse foi o meu pequeno conto de Natal, que assim como o clássico de Dickens, também tem um velho rabugento, um fantasma e uma lição aprendida. Vejamos como será o próximo, se o mundo não acabar antes.

P.S.: Não, eu não acredito nessa patifaria de calendário maia e o escambau, só queria um final mais alegrinho pro texto, o que pelo jeito, não consegui. Mas sou eu quem escreve deitado na cama, pau no cu de quem reclama (adoro rimas).

P.P.S.: Não cometerei o erro de prometer voltar a escrever, não tenho tido tempo, o motivo é simples e é só esse. Quando puder eu volto, mas, como disse, não posso prometer nada. Beijos e feliz ano-novo!

De olhos fechados

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Durante metade do tempo a luz natural do Sol reflete no mundo à minha volta e atinge minhas retinas.

Tudo é claro, tudo é visível.

Na outra metade do tempo, sempre tenho a disposição luz artificial que me revela aquilo que me interessa ser iluminado.

Mas há uma escuridão que de tão profunda nunca se acende.

Nesse abismo só posso distinguir algumas formas, que de alguma forma, são parte de mim.

Eu posso caminhar nesse grande mistério que jamais será iluminado por que eu sou a escuridão.

Mas se tem algo que me fascina quando saio na rua com os olhos bem abertos, é saber que cada pessoa que eu vejo é dentro de si escuridão também.

Chamada de longa distância

Foi bom ter se abrigado debaixo do orelhão naquele frio, mas não seria isso o que lhe deixaria menos nervoso. Pela quinta vez em um ano, realizava o mesmo ritual: chegava à noite em uma cidade desconhecida, fumava inutilmente uns dois cigarros pensando no que ia falar e procurava um telefone. Surpreendentemente, a voz do outro lado da linha havia se tornado muito mais calma do que a dele ao longo daquelas ligações.

Um “alô?” despreocupado foi o que lhe atendeu, daqueles de quem foi interrompido enquanto via a TV, ou lia alguma coisa, ou brincava com o cachorro. Ele achou que o última possibilidade era a mais provável. Ficou pensando nisso por alguns segundos até que a voz se manifestasse mais uma vez: “É você de novo, não é?”. Por um instante houve silêncio. Ele gostaria de responder que sentia saudades, que sentia pena pelas coisas estarem assim. Mas ao invés disso resumiu e compartimentalizou tudo em um “oi”. Se lhe perguntassem, não saberia dizer se o seu “oi” exprimia tudo o que sentia, mas era um começo. Pela quinta vez naquele longo ano, era um começo.

“Como é que você está?” era uma das inevitáveis perguntas da voz do outro lado da linha, uma das que persistiam. Na primeira vez em que ligou, tinha ouvido muito mais e na segunda também. Na terceira ainda houve escândalo, mas já era mais contido. Na quarta só algumas frases meio chorosas. Agora havia calma. A ligação não estava muito boa, a voz estava distante e alguns estalos soavam toda vez que mexia o cabo que ligava o bocal ao aparelho. Ainda assim ele conseguiu notar o esforço de autocontrole que vinha da voz do outro lado da linha. Percebeu que dessa vez não seria menos difícil do que as outras. Também não ajudava muito o fato do seu dinheiro estar quase no fim e que não encontrava emprego em lugar algum. “Eu estou bem”.

“Eu estou morrendo de saudades. Todo mundo sente a sua falta.” Ele já tinha ouvido essa antes também, sabia qual a outra frase que fatalmente viria depois, pois era a que mais lhe doía ouvir. “Você não se importa com o que os outros sentem?”. Para ele, e aparentemente só ele mesmo, era claro que isso não era verdade. Queria gritar e se retratar, mas não sabia como dizer; só o silêncio que poderia ter durado décadas.

E muita coisa foi dita naquele silêncio.

Geralmente era agora que as coisas pioravam, mas dessa vez foi diferente. Inesperadamente, ele disse a pergunta que o motivara a ligar para casa todas aquelas cinco vezes. “Você me odeia, pai?”. ”Não filho, eu te amo. Queria muito que você voltasse para casa”.

Era o que bastava para aquela noite. Não tinha forças para continuar mais. Alguns anos depois, eles voltaram a se ver e muito mais foi discutido, muitas perguntas foram respondidas. Mas pai e filho nunca conversaram sobre o que foi dito naquela noite.

Ch-ch-ch-changes!

Ahhhh…  nada como uma bela noite de insônia pra poder decidir algumas coisas pendentes! E um dos assuntos abordados pela Assembléia Geral que rolou na minha cabeça  por acaso foi este blog que você lê. Pois poxa, justo agora que eu estava pegando o gosto pela coisa eu passo quase um mês inteiro sem postar nada… como assim, Brasil?! Complicado.

Já faz mais de um ano que eu o criei e tenho no total 28 posts (incluindo este), sendo uma média de pouco mais de 2 por mês, o que eu considero pouco, levando em conta o tempo livre que eu tenho. Mesmo nesse ritmo lento, consegui atingir alguns dos objetivos que eu buscava quando comecei:

- Criar um costume; que para mim foi mais difícil do que pareceu a princípio.

-Desenvolver articulação; ok, ainda não dá pra escrever um livro, mas eu já noto alguns resultados desde que comecei a exercitar a escrita. E o Notas Provisórias foi um dos principais meios de realizar isso desde que eu terminei a faculdade. Ainda falta atrair mais feedback, sinto falta de ser criticado, o que leva à próxima meta.

-Desenvolver segurança; bom, quem me conhece intimamente pode atestar: eu sou um porra de um zé-mané super inseguro, ou pelo menos costumava ser e estou aos poucos aprendendo a deixar isso de lado. Pelo menos no que diz respeito a mostrar o blog à família e amigos isso já se resolveu, embora eu deva admitir que não muito por esforço próprio e mais por incentivos recebidos cara-a-cara e via Facebook. Destaque ao post de que mais obtive retorno, Wild Thing, principalmente depois que este foi republicado aqui, embora com uma edição menos caprichada na diagramação.

Pondo tudo isso na balança junto com a minha vontade de levar isso cada vez mais a sério, resolvi fazer uma série de mudanças, algumas pequenas, outras nem tanto:

- Primeiro eu rebaixei a categoria “Particularidades” ao nível de tag, o que faz ela sumir do menu superior. Fiz isso por que eu acho que já chega de falar de mim mesmo, especialmente da maneira indireta e sem contextualização que nem a maioria dos textos que estão nessa classificação. Esses textos tiveram seu propósito para época em que foram feitos, mas hoje em dia talvez sirvam apenas como um registro particular que não necessariamente interessa ao leitor. Na verdade sou bem capaz de tirar do ar, mas isso eu decido depois.

-Segundo, mudei o nome da categoria-pai “Comentários” para “Notas diversas”. Além de passar a ter mais a ver com o título do blog, também deixa de causar uma possível confusão de que clicando no link você tem acesso ao comentários de quem lê. É meio bobo, eu sei, mas tem lá o seu sentido.

-Terceiro e mais importante: estabeleci um modus operandi com uma série de regras auto-impostas feitas para eu me forçar a escrever mais e sobre mais coisas. Eu combinei comigo mesmo de escrever ao menos um post por semana, de preferência sempre no mesmo dia. A ideia é que se eu não conseguir desenvolver algum texto original nesse meio tempo, eu pelo menos comente sobre algum filme, livro, série, etc. No geral, significa sentar mais a bunda para escrever.

Sendo assim, esse post de hoje serve como uma maneira de manter um compromisso além de comigo mesmo. Já tenho uma meia dúzia de ideias (não me pergunte o porquê, mas me incomoda chamá-las de pautas) engatilhadas para as próximas postagens e, se possível, já penso em começar nesta semana mesmo, mas isso é incerto.

Vamos ver o que rola.

O dia em que ele acordou com o mundo em cima de sua casa

E a segunda coisa mais engraçada daquela situação foi quando ele acordou, sentindo dor e dificuldade para respirar, e teve seu primeiro pensamento do dia: “o meu quarto já foi maior do que isso”. Abriu os olhos e não enxergou nada, mas sabia que o teto da casa estava somente a um palmo do seu rosto. Tentou se mover e percebeu que as pernas estavam presas entre o estrado da cama e alguns blocos de concreto que devem ter caído da parede. Não sabia quanto tempo tinha dormido, nem se lembrava de nada da noite anterior. Mas já deveria ser dia, com o sol já a pino, considerando o calor que sentia. Ou isso ou era o ar que estava abafado. “Preciso ir buscar um copo d’água” foi a segunda coisa que ele pensou, ao se dar conta da boca seca. Tentou mover os braços, mas só conseguiu o esquerdo. Com o direito apenas veio uma dor maior do que qualquer outra que já havia sentido antes, um pouco abaixo do ombro. “Então é isso o que se sente quando se perde um braço?” foi o pensamento  mais articulado que lhe ocorreu depois que parou de gritar e chorar.

Não demorou muito para começar a se perguntar dos outros, sua família e amigos. Era estranho no entanto, que não pensasse em ninguém em particular, apenas em um termo abstrato, “os outros”. Talvez tenha levado alguma pancada na cabeça, algum tijolo que caiu do teto ou coisa parecida. Tentou lembrar-se do próprio nome, pois se soubesse ao menos isso então poderia talvez lembrar-se de quem eram sua mãe e seu pai, se tinha algum irmão ou irmã, se era casado ou se tinha filhos. Mas assim como qualquer outra coisa  no momento, pensar muito doía. E não se lembrava de ninguém, tampouco de si mesmo. Mais uma vez ele sentiu vindo do peito uma dor maior do que todas as dores que já havia sentido antes, inclusive a que lhe vinha do braço naquela hora. Uma solidão que crescia e se entalava na garganta seca demais para chorar de novo. “Será que essa é a minha casa ou eu estava na casa de alguém?” foi o que ele começou a se perguntar. Tentou fazer silêncio, controlando a respiração, para ouvir se havia alguém por perto. Nada. Parou totalmente de respirar. Nada. Sabia que estava em uma cama dado o conforto relativo que tinha nas costas, só poderia ser um colchão. Ou talvez um sofá. “Será que estou deitado na sala?” Com a mão esquerda apalpou o que pudesse estar ao seu alcance, mas só havia concreto e poeira. Sentiu um estofado debaixo do corpo, que acabava subitamente. “Isso definitivamente é um colchão, agora só falta saber se eu dormia sozinho ou se estava com mais alguém”. Mas do seu lado direito só havia uma parede fria e estranhamente próxima, em cima da dor que um dia foi o seu braço. Impossível saber se estava numa cama de solteiro ou de casal. Se fosse a primeira hipótese, então estava preso sozinho. Caso contrário a parede poderia ter dividido a cama, que talvez fosse grande, em duas. Seria possível então que houvesse alguém ali do outro lado, alguém que estivesse na mesma situação que a dele, tentando calcular qual a largura média de uma cama de casal ao invés de simplesmente se concentrar em sobreviver.

Conforme o tempo passava, percebeu que tudo o que poderia ter acontecido era possível. “Talvez o mundo inteiro tenha desabado. O céu deve ter caído enquanto eu dormia e matado todos os outros. Até onde eu sei, posso ser o último ser humano vivo”. E ele nem precisou concluir essa ideia para se sentir terrível e absurdamente egoísta. Incrível como tenha conseguido chorar de novo. Conseguiu se acalmar só alguns minutos, ou horas, ou talvez só alguns dias depois, era difícil dizer.  Começou a pensar racionalmente quando decidiu que estando os outros vivos, se é que havia outros, não havia muito o que pudesse fazer para ajudar naquela situação. “De qualquer maneira, acho que eu não duro muito aqui embaixo”, sabia disso conforme tornava-se mais difícil de respirar. “Se houver alguém do outro lado dessa parede, por favor me perdoe, mas eu não consegui. Eu não me lembro de quem você é, mas se você estiver aí, gostaria de ter deixado as coisas mais fáceis para você”. E pela primeira vez desde que acordou, parou de sentir medo. Naquele momento ele poderia até ter começado a se golpear de raiva, se ao menos conseguisse. Não se suportava, a sua fraqueza e incapacidade, sua inabilidade de levantar o teto de casa e o céu que deveria haver acima dele. Por isso não rezou nenhuma vez. “Que deus é esse que joga o mundo sobre a minha casa enquanto eu durmo? Se eu tivesse sido feito à imagem de qualquer ser superior, deveria ser capaz de suportar todo o peso em cima de mim e daqueles que estão na minha casa”. Então ele percebeu que não havia nada que pudesse cair do céu a não ser o próprio sobre a sua cabeça.

Somente então  que houve a coisa mais engraçada daquela situação: ele cantou. Começou com um murmúrio sem ritmo, mais para limpar a garganta de pó do que qualquer outra coisa. Foi o primeiro alívio desde que acordara, então não conseguiu parar. “Isso não vai me salvar, não vai me poupar energias. Mas é tudo o que eu tenho agora”. E murmurou com mais força. A princípio nem ele sabia qual era o ritmo que entoava, simplesmente era algo irracional que brotava espontaneamente. Pouco a pouco, o murmúrio tomou forma, adquiriu uma métrica e um refrão, mesmo sem nenhuma palavra discernível, apenas algo familiar. “De onde vem isso? É reflexo de alguma coisa de que não me lembro?”. A curiosidade lhe trouxe um ânimo inesperado. O arremedo de música que ele agora cantarolava com uma relativa confiança só poderia ser parte primordial da pessoa que ele fora antes de estar ali preso. Veio então uma explosão de imagens e sons na sua cabeça, a música que escapava dentro dele trazia embalada consigo todas as memórias de sua infância, de sua adolescência e do caminho que o levara até ali. Lembrou-se de quem eram seus pais, seus irmãos, seus amigos, as pessoas que amava e da mulher por quem sempre fora apaixonado. E lembrou-se do cheiro que exalava dos cabelos dela e que lhe dava a certeza de estar vivo. E lembrou-se de como é se sentir vivo. E lembrou-se de continuar a cantar a música que agora sabia ser uma canção de ninar antiga, parte da primeiríssima lembrança de sua memória, o primeiro registro de quem ele era. E cantou de fato, palavra a palavra e repetidas vezes, a música que há muito tempo ajudara a definí-lo.

E só parou de cantar quando percebeu um som muito baixo vindo da parede a sua direita. Era uma outra voz que começara a acompanhá-lo.

Diálogo Mequetrefe

29/08/2011 1 comentário

-E o que exatamente tem te incomodado?

-Bom… existe essa página em branco que eu não consigo preencher.

-E você sabe o que falta para escrever nela?

-Até sei. Preciso viver mais, fazer mais coisas, mais intensamente. Preciso me permitir. Só não sei como faço isso. Não sei como escrever mais. Parece que tudo o que eu vejo é um eco daquilo que já foi escrito antes. Eu estou sempre me lembrando, sempre fazendo pequenas homenagens. Não é como se eu estivesse fazendo planos de verdade, entende? Meu livro estava sendo escrito normalmente, mas de um instante pro outro, todas as páginas se apagaram.

-Entendo. Olha, confie em mim. eu já vi muita gente assim. Eu mesmo já estive nessa situação. Isso pelo que você está passando não é nada mais do que um desânimo momentâneo. Você se preocupa em viver à mil por hora, mas se esquece que viver não é nada além daquilo que se faz entre nascer e morrer, com o perdão do clichê. Você teve um ponto de ruptura tão profundo que acredita que o seu tempo está dividido, que há o antes e o agora, mas essa é uma relação falsa.

-Não, ela é verdadeira. O passado e a memória existem, assim como a ruptura que você mencionou. Não dá para dizer que não houve uma quebra de paradigmas por que ela houve de fato, atingindo várias pessoas, e não somente a mim.

-Sim, sim. Houve um fato e com ele as suas consequências. Mas isso pelo que você passa não é uma questão factual, de ação e reação. Temos um problema subjetivo aqui. O ponto é sobre a maneira como você encara tudo isso. E sim, passado e memória existem, e eles tem o seu peso sobre o que você é agora. Mas preste atenção: é difícil definir o que o agora é. O instante em que você termina de dizer uma palavra já se foi quando você pára pra pensar nela. O presente tem a ilusão de ser estático, mas ele é sempre fluído, quase uma ilusão entre o futuro e o passado imediatos. Pense na escala de tempo de maneira matemática. Um segundo sempre pode ser dividido em mil milésimos, ou em um milhão de milionésimos, um bilhão de bilionésimos, um trilhão de trilionésimos de segundo e etc. Você sabe o que acontece em um trilionésimo de segundo?

-Não, não faço. E pra ser sincero, também não sei o que isso tem a ver comigo.

-Já vou chegar lá: na verdade, não acontece quase nada. A não ser que você viva no início do Universo. Levou bem menos tempo do que um trilionésimo de segundo para o Universo deixar de ser um ponto minúsculo e se tornar numa estrutura de proporções astronômicas.

-Mais uma vez, o que isso tem a ver comigo?

-Nada. Especificamente com você, isso não tem nada. Só demonstra que tempo e distância são apenas conceitos relativos. Mas essa nossa rotina do dia-a-dia, sempre correndo e  contando o tempo, parece que nos tirou essa noção de relatividade.  No passado, as pessoas inventaram relógios para organizar o tempo, para que houvesse uma organização da sociedade. Fazemos isso quando esperamos um avião sair na hora marcada, quando agendamos uma festa para determinado dia, quando saímos do serviço para o nosso horário de almoço. Uma mecanização da vida. Mas essa padronização não é natural. A natureza não obedece padrões específicos, com níveis absolutos de exatidão.  E por mais que se negue ou se esqueça, nós somos criaturas tão naturais quanto uma pedra ou uma planta.  E quando digo nós, incluo tanto o nosso aspecto físico quanto mental. A nossa consciência também é natural. O que você vê e sente é tão caótico quanto a organização molecular de uma folha.

-Quer dizer que eu sou caótico? É isso, então? Devo ignorar o meu passado por que minha mente é tão estranha quanto uma pedra? É essa a porra do seu conselho?

-Não. A sua consciência é a pedra. A maneira como ela muda é tão variável quanto o estado da pedra. A princípio parece que a pedra é imóvel, mas talvez ela já tenha sido parte de uma montanha, pode ser arrastada pelo vento ou pela água, pode voltar a fazer parte de uma outra montanha ou pode se esfarelar em areia. Guardadas as devidas proporções, a sua visão de mundo também muda. Agora você se sente mal por causa de qualquer coisa que esteja lhe perturbando, mas a mudança é inerente. Cedo ou tarde, você vai mudar, vai se sentir melhor e tudo será bom mais uma vez.

-Mas eu não aguento mais esperar por mudança. Eu não posso ficar parado, tem que haver algo que me traga de volta. Algo que faça eu me sentir que nem era antes.

-Não adianta forçar uma existência que não é sua. Buscar algo que não é o que você precisa no momento. Ficar parado também não é uma opção. Apenas seja o que você é. Aceite-se e permita-se.

-Muito bonito. De verdade.  A maneira como explicou tudo foi meio confusa, mas acho que entendi. Mas tem algo que eu sei que você não sabe. Algo que talvez mude toda a situação. Ou não.

-Do que você está falando?

-Você não existe, nem eu. Esse diálogo não existe. É só uma ficção. Tudo o que eu sinto e tudo o que você acaba de dizer não nos pertence. Alguém escreveu esse texto para nos pôr frente a frente. Nós coabitamos a imaginação de um autor. A sua lógica também é a minha e o meu vazio também é o seu. E também de nenhum dos dois. Nós fazemos parte da mente de alguém que não consegue dormir e que, por acaso, resolveu escrever qualquer merda sem sentido.

-Então é isso. Você que nos escreveu, e que também sou eu que me escrevi e a ti também: por favor escreva mais e crie mais, quem sabe entre um texto bobo e outro você não encontre a solução para o que você tem passado. Um dia, sem você perceber, já vai voltar a preencher as folhas em branco.

-É isso o que me incomoda.

-E o que exatamente tem te incomodado?

-Bom… existe essa página em branco que eu não consigo preencher.

-Olha, você que escreveu tudo isso e o escambau: perdi a paciência agora. Vai dormir, vai… e me faz o favor de quando acordar, tomar um café e revisar esse diálogo mequetrefe que você escreveu. E se ainda tiver coragem de publicar naquele seu blog sem-vergonha, faça-me o favor de não me aparecer mais por aqui enquanto não tiver algo realmente decente para dizer.

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